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Preconceito

Não posso reclamar da vida, exceto pelas perdas mais próximas e, portanto, mais sentidas. Embora fosse um menino suburbano estudando num colégio da elite do Rio de Janeiro, fui alvo de raros preconceitos, de registro irrelevante. Mas, ao longo da percorrida por essas plagas terrenas, testemunhei comportamentos revoltantes, tratamentos asquerosos, segregação de todos os tipos. Sou forçado a reconhecer a injustiça reinante no mundo.

Mesmo na inexistência de regras, et pour cause, não são poucos os indivíduos a se julgarem superiores aos outros por algum motivo. Ao contrário, eles são muitos, espalhados pelos mais diversos setores e camadas sociais. Por ironia, muitos estão incluídos no próprio alvo das injúrias e sequer conseguem se dar conta disso, tamanha a sua desfaçatez.

Passa o tempo, se estabelecem neologismos e rótulos, contudo o comportamento persiste e o ser humano resiste às lições do cotidiano. Não me preocuparei com terminologias ditas politicamente corretas, em razão delas não resolverem o problema. A solução está na atitude, muito mais forte e presente do que as palavras. Até porque, se não há eurodescendente não deveria existir afrodescendente. Na verdade, há pessoas, pouco importando se brancas, amarelas, negras, mulatas, mamelucas ou índias.

Sou filho de um negro bonito, dotado de um QI diferenciado. De origem humilde, meu pai carregou muitas caixas de cerveja em sua adolescência/juventude, ajudando ao padrasto num comércio pequeno. Aluno aplicado, com graduação em Contabilidade, fez carreira numa grande e famosa empresa, pertencente a uma família judia. Só não alcançou a diretoria porque faleceu cedo, aos quarenta e um anos. Era então o Contador do conglomerado composto por uma grande rede de lojas, uma construtora e hospitais.

Tenho muito orgulho dessa ascendência e fico imaginando o meu pai frente ao preconceito. Não me recordo de algo nesse sentido e nem chegamos a conversar sobre esse tema, talvez por nos ter faltado tempo. Mas, com certeza, isso ocorreu em sua vivência entre as décadas de trinta a setenta, num país que ainda hoje, em pleno século 21, mal disfarça a segregação racial.

Apesar das histórias de sucesso de gente de todas as raças, gêneros, credos e cores, sobrevive no inconsciente coletivo um mórbido desejo de submeter os outros aos caprichos de suas idiossincrasias. Sou otimista por natureza, talvez pelo sorriso quase permanente do destino. Confesso, porém, a desesperança de viver num mundo melhor, sem a excrescência de qualquer preconceito, inclusive o exercido ao contrário, por quem o enxerga maiúsculo aonde sequer existe.

Se o esporte aprimora corpos e mentes, a maior ginasta do mundo é Simone Biles; o tetracampeão Lewis Hamilton é o atual campeão da Fórmula 1; Usain Bolt, o maior velocista de todas as eras;  Serena Williams, rainha no tênis; Pelé, o Rei, atleta do século passado e o maior jogador de futebol da história; Michael Jordan, o maior jogador de basquete de todos os tempos.

Martin Luther King, Sidney Poitier, Ella Fitzgerald, Ray Charles, Nelson Mandela, dentre tantos outros, além de Barack Obama, presidente da maior economia mundial e, muitos, muitos outros negros e negras ocuparam, ocupam e ocuparão posições de destaque no mundo, queiram ou não queiram os idiotas de plantão.

Mesmo com a discriminação dos ignorantes, preferindo ignorar a existência de diversos protagonistas negros na história da humanidade, a raça negra permanecerá oferecendo personagens proeminentes em todas as áreas de atuação. O talento e a inteligência não possuem nuances de cor, se evidenciam pela importância e pelo brilhantismo, independendo das sombras à espreita.

A consciência não é negra, branca, parda ou amarela,.

Nem tão somente hoje.

É consciência sempre.

 


4 comentários

  1. Antônio Marcos diz:

    Mais um belo texto.Quando sai o livro?
    Abração

    • Alexandre diz:

      Muito obrigado pela paciência da leitura e pela gentileza do comentário, meu grande amigo AM.
      Seria muita pretensão conseguir uma editora.
      Forte abraço.

  2. Natália Fernandes diz:

    Que palavras maravilhosas, pai! Também pergunto: quando sai o livro? 😊😘👏👏👏

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