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Memórias íntegras ou O tringuelingue

Além de acumular bastante experiência e desenvolver alguma temperança, a idade vai somando. Fossemos uma obra de Da Vinci, já estaríamos valendo quase meio milhão de dólares num leilão desses por aí. É tempo de encarar a vida com mais otimismo e desapego, promovendo os momentos de felicidade ao primeiro lugar do pódio nosso de cada dia. Enquanto não ganhamos a sonhada liberdade do cárcere imposto pelos canalhas, somos obrigados a nos preparar para a conquista de nossos projetos mais sublimes. Para conseguir chegar à recompensa por tanto empenho décadas a fio, o corpo exige exercícios para manter a forma. Mas precisamos também exercitar a mente, evitando as teias de aranha pelos cantos do cérebro, bloqueando o sotaque alemão em nossas sinapses.

Como ainda não inventaram aquela máquina de teletransporte da Enterprise, o jeito é recorrer a outros artifícios. É ótimo utilizar as memórias auditivas, gustativas e olfativas, pois não costumam falham. Estão presentes em minha cabeça os aromas, os sabores, as músicas e os sons registrados em outras épocas. Lembro-me do inicio do ano letivo sentindo o cheiro do couro da minha mala misturado ao do papel novo encapando meus livros e cadernos; a fragrância do Avant la fête, do Lancaster ou do Nau anunciando a saída do meu pai para o trabalho; o gosto inconfundível das rabanadas de leite ou de vinho em todas as festas de dezembros comemoradas por uma enorme família, reunindo avós, tios e tias, primos e primas, uma verdadeira efeméride.

Caminhando e cantando uma antiga canção me transportei a um remoto passado. Eu nem precisava do Natal para conversar com amigos ocultos, eles foram companhias fiéis e freqüentes no meu quarto. Com eles fazia acalorados debates em meio aos brinquedos antes de guardá-los na caixa assassina, alcunha depois de prender a ponta do meu Mais Querido numa queda de tampa inesperada.

Fufiralfa, minha namorada invisível, e Alfredinho Carrapa, parceiro de estratégias, são testemunhas vivas de tudo isso em algum lugar do presente. Pausávamos nossas conversas muitas vezes para escutar o amolador de facas em seus animados concertos, no ritmo de seus dois instrumentos: uma lâmina e uma pedra de amolar girada pelo pedal da bicicleta.

Da mesma forma fazíamos silêncio no toque da buzina igual à do Chacrinha, acessório do triciclo do tripeiro. Eu descia aos pulos os quatro lances de escada para comprar as vísceras vendidas por um senhor de jaleco branquinho e com um chapéu de Jim das Selvas. O seu Manoel, sempre sorridente, abria a tampa do triciclo para os primeiros fregueses. Eu aguardava espreitando os futuros bifes de fígado, o próximo coração recheado com farofa, o projeto de dobradinha com batatas, a candidata à rabada da vez.

A pé, embora não menos sonoro com o seu Tringuelingue, um similar de castanhola gigante feita com pratinhos de metal e madeira, chegava o vendedor de biscoitos em canudo e de pirulitos de açúcar queimado.  De tão frescos, os biscoitos esfarelavam com facilidade. Os pirulitos nos exigiam muita paciência para arrancar o papel grudado antes de saboreá-los.

Guardarei enquanto possível esses sons, imagens e sabores no meu inconsciente, porque fazem parte integrante de mim, porque me ajudaram a esquecer dificuldades, construíram o que sou junto comigo.

E o que têm em comum esses personagens todos? Não existem mais, não sobreviveram. Sucumbiram após o sumiço do guarda noturno, único responsável pela tranquilidade e segurança do bairro, soprando o seu indefectível apito, arma suficiente no combate às ameaças.

Resistimos apenas Alfredinho Carrapa, Fufiraufa e eu.

Com certeza, contra tudo e contra o tempo.


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