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Tudo é divino e maravilhoso

A chama não se extingue por milagre, desde os homens das cavernas a defenderem o lume espontâneo em turnos rodiziados, sabedores da importância de sua manutenção. As eras passaram e aos crédulos num poder ígneo, numa energia ígnea, cuja origem seria cósmica, cabe exercitar a vigília da chama acesa. Talvez seja esse o mistério de nos manter vivos, atentos e fortes, com a mente quieta, a espinha ereta e o coração tranquilo.

Se aproxima o meu aniversário de 61 anos e o melhor presente veio mais cedo numa reviravolta surpreendente dos meus projetos de vida. Como o tempo é inexorável e não respeita os nossos planos, ele expressa em sinais as suas alternativas. Não deve ter sido mero capricho do destino um zapear fortuito me apresentar a uma entrevista inusitada na TV. Nela aparecia uma Elisângela muito diferente daquela musa da minha infância. A assistente adolescente do Capitão Furacão não existe mais nem na minha fértil imaginação e, de inatingível nos meus sonhos de menino, passou a símbolo de um rito de passagem. Mas ser envelhescente concede bônus também. Aliás, tudo na vida embute ônus e bônus. Precisamos e devemos nos aperfeiçoar na arte de escolher o que possui mais bônus do que ônus.

Assim foi a minha opção de vida pela tranquila Passo Fundo, onde hoje completo a primeira semana de gratas surpresas, numa cidade detentora da vigésima primeira posição em qualidade de vida, dentre milhares municípios brasileiros. Os parâmetros da pesquisa consubstanciada estão escondidos em cada sorriso receptivo dos passo-fundenses, em cada gesto de hospitalidade, na expressão de sincera cordialidade de uma gente simples e atenciosa. Abraçados como naturais, nos sentimos cada vez mais em casa. Enquanto não definimos a morada, vamos repousando o corpo, a mente e a alma num apart hotel.

Minha rotina diária tem sido circular pelas ruas calmas de uma cidade de cento e nove cinco mil habitantes. À noite, o frio afugenta os transeuntes e a cidade se resume aos poucos veículos teimando em trafegar. Isso vale até para os sábados. A partir da primeira hora buscamos outro imóvel e depois bebemos um chocolate quente num bistrô com seis mesas. Em seguida, iniciamos a jornada. Ao final do dia encerramos da mesma forma. Terminado o horário comercial, corremos para olhar outra possibilidade de residência. Vai acabar funcionando, no tempo certo, no imóvel adequado, no preço justo.

Entre idas e vindas, à procura do lugar perfeito, até ouvi sobre o aumento da criminalidade em Passo Fundo, embora ele não seja visível nem crível. A melhor referência foi ouvir de um local sobre o “absurdo congestionamento de quatro minutos” na principal avenida, a Avenida Brasil, que atravessa Passo Fundo de ponta a ponta. Deve ser mesmo muito difícil conviver com esse gravíssimo problema de trânsito. Tanto quanto levar no máximo quinze minutos para chegar ao trabalho, ir e vir para todas as direções com facilidade, almoçar em casa todos dias. Em Passo Fundo tudo fecha de 12:00 às 13:30, com raríssimas exceções, como farmácias e restaurantes, por exemplo.

Enfim, como diz o refrão da letra do Caetano, cantada primeiro pela Gal em 1968: “atenção, tudo é perigoso, tudo é divino e maravilhoso”. O perigo ficou para trás, a mais de mil e quatrocentos quilômetros. E a felicidade disfarçada de distância nos faz lembrar de como a vida pode ser simples, proveitosa e feliz.

Podem acreditar, mesmo nesse Brasil injusto, violento e desigual, isso ainda é possível.


1 comentário

  1. Antônio Marcos diz:

    Seja feliz e aproveitem . Abração

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