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Deu pra ti, baixo astral, vou pra Passo Fundo, tchau…

“Se houver somente um soldado, este não conseguirá guerrear contra todos os seus adversários. Então ele precisará se juntar aos que lutam pela mesma causa, para poder vencer as batalhas que surgirem. Assim somos nós.” (Anônimo)
Outro dia conheci a estória de um morador de rua flagrado com lágrimas nos olhos. Questionado o motivo da emoção, ele a atribuiu a um artigo de jornal encontrado no lixo, lido minutos antes de ser usado para forrar uma das calçadas da nossa injustiça social. O referido texto, ilustrado com a foto de um idoso voando numa asa delta, relatava uma iniciativa no mínimo peculiar. A experiência do piloto reverenciava a memória do filho recém-falecido em voo semelhante. O pai resolveu repetir o último trajeto do filho, objetivando sentir semelhante liberdade através do prazer de voar. Assim, segundo ele, conseguiria interiorizar o sentimento do rapaz em tantos voos e guardar melhor a sua lembrança.

Esses relatos me tocaram a alma, seja o do pai buscando resgate, seja o do sem teto sensibilizado com a emoção alheia. Se com a envelhescência cada vez mais me enterneço, as semanas recentes afloraram minhas emoções. Anestesiaram um pouco as reclamações sobre a violência carioca e disfarçaram os riscos diários de morar num caótico Rio de Janeiro. Deram lugar a um banzo antecipado, a uma sensação prévia de saudade daqueles a quem tanto prezo e deixarei para trás, entregues à própria sorte e sem a minha companhia. Pior para mim, que ficarei sem a maiúscula proteção de tantos anjos da guarda, não importando se estarei numa cidade de 190.000 habitantes, contingente menor do que o do bairro onde moro hoje.

Não, não me retiro forçado depois de quase 61 anos de residência na outrora Cidade Maravilhosa, exceto três anos vividos entre a Pauliceia Desvairada e as Alterosas. Por livre espontânea vontade, determinada pelo meu coração, vou me deslocar 1.500 km para o Sul desse imenso e maltratado país. Ironia, decisão do mesmo coração a doer com o afastamento de tanta gente querida. Mesmo convicto da melhor decisão, impossível não emergir a imagem do voo do idoso que fez marejar os olhos do sem teto. Quero que voem comigo o sonho de uma vida mais tranquila e feliz. Ao invés de um voo solo ou duplo, será um voo coletivo, de plena contemplação. Será semelhante ao voo do pai saudoso e servirá para interiorizar, em qualquer conotação, o sentimento desse antigo caminhante, viajor da melhor idade. Irei abraçado a cada um de vocês, num abraço anímico. Estaremos todos nesse desafio, estaremos todos nessa vida nova e merecida.

Vocês e outros amigos e amigas sempre foram o meu refúgio, o meu elixir para as dores do corpo, da mente e do espírito, em especial essas duas últimas. Não posso me queixar da sorte, pois fiz muitas e importantes amizades ao longo da vida. Por onde transitei me relacionei com a heterogeneidade da natureza humana e sua maestria de nos fazer ao mesmo tempo tão iguais e tão diferentes, nos aproximando e nos distanciando, umas épocas mais e outras menos. Tenho muito orgulho das relações sólidas construídas em minha caminhada. Conheci e me aproximei de pessoas muito especiais no decorrer da existência. Com elas aprendi e aprendo demais, numa permuta de ricas experiências, aperfeiçoando a minha essência e aparando as arestas da minha pedra bruta.

Apenas palavras não fariam justiça à enorme legião de amigos e de amigas que dividiram, dividem e dividirão suas histórias comigo. Com eles busquei desfrutar da melhor maneira de cada momento, neles me apoiei e procurei apoiá-los nas incontornáveis agruras. Juntos vencemos pequenos e enormes desafios, mesmo quando a ausência de um ou outro desfalcou a comunhão de esforços. Na impossibilidade da presença física, nos completamos mental e espiritualmente, através do aprendizado, da lembrança, do mútuo saber adquirido.

Por essa e outras inúmeras razões, concluo parodiando Kleiton e Kledir, conhecidos poetas da região para onde vou:

Deu pra ti, baixo astral, vou pra Passo Fundo, tchau…


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