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Mário

Convivo com as perdas de entes queridos desde a mais tenra infância. Minha avó paterna, também minha madrinha, faleceu em pleno Dia das Mães, quando eu tinha 6 anos. Meu avô paterno demorou um pouco mais, mas se foi bem cedo. Entre os dois, de maneira muito precoce, perdi meu pai, que mal ultrapassara a casa dos quarenta anos. Portanto, entrando na década sexagenária, me considero bem experiente nesses difíceis eventos.

Possuidor de uma estreita relação com os animais, o desenlace de cada um deles sempre foi sofrido, diria traumático. Os primeiros foram meus canários roller, uma raça de franjinha, que uma virose arrebatou de mim quase todos de uma vez. Eram quatorze, entre machos e fêmeas. Isso me marcou de tal forma que jurei não tê-los jamais.

Cresci sem um mascote, retornando às origens quando pai, influenciado pelo desejo dos meus filhos. Um scottish terrier, o Scottie, repaginou a minha vida. Depois vieram a Princesa, a Naomi, Naná para os íntimos, o Popó, a Nina, o Zico e, a mais recente, a Lupita. Chegaram a cinco ao mesmo tempo. Hoje me restam os três últimos. Se a cada partida desses amigos verdadeiros fui tomado por uma carga enorme de tristeza, tamanho o apego mútuo com eles, como definir a dor inversa?

Sempre questionei essa troca especial de carinho, de devoção incondicional e de amor indiscutível entre os seres ditos irracionais e nós. Eles não falam, mas expressam tudo com o olhar e o comportamento. Nessa linguagem simplificada eles são capazes de traduzir pensamentos, sentimentos e um dicionário completo. Não aceito maus tratos a eles, razão pela qual, exceto o Scottie, os recolhi todos das ruas.

Sábado passado eu conheci o Mário. Não, não é aquela velha piada, mas um galgo lindo, de raça pura, cuja tristeza profunda nos olhos me sensibilizou assim que cruzamos olhares. Eu entrava numa casa de festas e ele estava deitado num sofá. Afeiçoado pelo porte do cão e consternado pelo seu olhar, de imediato me aproximei e o afaguei. Ele foi receptivo, embora tímido e temeroso. Logo descobri que o Mário sofria de uma orfandade recente. Seu único dono e anterior residente no local, um jovem, teve a vida ceifada por uma pneumonia avassaladora.

Passados alguns meses, Mário ainda se reenergiza da grande frequência dos visitantes e, não raro, escapa de casa em busca do seu dono. Já se confundiu com alguém abrindo a porta de um táxi, ficou feliz e correu até o passageiro, quando o olfato lhe sacudiu a memória e lhe retornou à saudade cruel. Dói imaginar a sua amargura dia após dia, tradução perfeita da reação de desvelo de todos eles ao sairmos por algum motivo e das demonstrações de alegria interminável, de êxtase total, de plena felicidade pelo nosso retorno. Só quem os ama compreende as minhas palavras. Só quem viveu tal situação pode avaliar com precisão esse relato.

Mário, minha torcida é pelo senhor da razão e da temperança para lhe apaziguar a alma. Apenas ele, o tempo, tem esse condão. Quem sabe o seu parceiro retorne um dia, ainda que noutro invólucro.  Enquanto isso, de quando em vez, eu vou passar por aí. Quando impossível, lhe enviarei pensamentos positivos.

Força, campeão!


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