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Janela da fantasia

Há uns quinze dias assisti ao excelente “A qualquer custo”, com uma interpretação muito especial do Jeff Bridges, filho do inesquecível Lloyd Bridges, o eterno Mike Nelson das “Aventuras Submarinas” da minha infância.

Isso me remeteu às minhas manhãs e tardes de criança, em frente à TV.

Às vezes tenho saudade de mim, sem saber ser bom ou ruim. Nostalgia de um tempo quando a TV, mesmo ainda transmitindo apenas em preto e branco, me encantava demais.

Fui muitas vezes o Falcão Negro, hábil com a espada contra os inimigos; o Roy Rogers perseguindo bandidos com a velocidade do seu belíssimo Trigger; o Tarzan e sua Jane, liberdade com a fauna e pela flora, sua casa na árvore e os voos-livres nos cipós; o Jim das Selvas ajudado pelas flechas do Skipper e pela Tamba; o Mike Nelson mergulhando nas profundezas do mar; o Zorro cavalgando o Silver; o cabo Rusty e seu inseparável Rin-tin-tin.

Enfim, outros tantos personagens me fizeram confundir a ficção com a realidade dos meus dias de menino. Hipnotizados pelas imagens de cada episódio, meus olhos transportavam para a minha alma de criança um mundo ideal no qual o bem sempre vencia o mal.

A coragem dos meus heróis fazia qualquer desafio ficar menor, os insignificantes deslizes sequer inibiam a disposição de seguir em frente.

Eles eram mortais somente em tese, lembrada por alguns poucos ferimentos, em geral superficiais. Seu inexorável destino jamais foi ameaçado mais do que por fugazes minutos, tempo do anunciante falar do Dulcora, dos cobertores Parayba ou das Casas da Banha.

Enquanto isso eu reproduzia as cenas dando socos em almofadas e pulando de sofás para poltronas. Eu invadia a tela com a força da imaginação, mesmo sem o recurso dos óculos de 3D.

Eu me via misturado aos elencos em mesas de bar, embrenhado nas matas, nadando nas águas misteriosas dos rios, descobrindo novas espécies no fundo dos oceanos, percorrendo intermináveis planícies.

A felicidade de uma vida cheia de aventuras me fazia sonhar acordado ou dormindo, resgatado apenas pela ansiedade do reencontro com novos filmes.

Meus ídolos não voavam nem possuíam equipamentos com alta tecnologia.

Eram capazes de suas proezas através do heroísmo, do companheirismo, da confiança, da persistência.

Talvez nisso residisse o mistério do meu encantamento. Eu me via em condições de fazer coisas semelhantes, bastando repetição e muito exercício.

Enfrentar adversidades, batalhas e oponentes se resumia em acreditar em si mesmo e buscar no coração uma centelha de valentia.

Tudo parecia mais fácil e simples. A vitória era mera questão de tempo e de alguma paciência.

A vida passa e deixamos de crer nas façanhas daquelas criações de escritores inspirados.

As exceções de atos de bravura e de atitudes heróicas existem única e exclusivamente para confirmar a regra.

Acabamos entendendo, pelo modo mais prático ou pelos tortuosos caminhos da existência, que mesmo os protagonistas possuem limite.

Somos tão atores quanto os que já se foram após fantasiarem inúmeras manhãs e tardes de nossa infância.

Padeceram dos mesmos males, sofreram as mesmas incertezas, conviveram com as mesmas fraquezas.

Mas aqueles momentos mágicos propiciados por eles preencheram um vazio e nos encheram de esperança num futuro promissor.

Cumpriram a sua missão. Até hoje ecoam em minha mente os gritos “Hy-Yo Silver” e “Hi-Yo Rinty”.

Jamais tive um cavalo e meus cachorros nunca foram exemplos de valentia, porém jamais esquecerei dos meus heróis.

Em especial por me sentir sempre próximo deles.


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