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2017

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2016 agoniza enquanto os imbecis teimam em queimar dinheiro com foguetes, cujo único objetivo é fazer barulho, aterrorizando crianças pequenas, idosos e animais. Entra ano e sai ano, a rotina se repete com esses idiotas massacrando os nossos tímpanos, só porque se vira uma página do calendário e tudo vai recomeçar.

O Papa Gregório pasteurizou o tempo num calendário, emoldurando a felicidade num quadro com data marcada e registro em cartório. As pessoas, após praguejarem contra o ano terminando, pulam sete ondas; chupam romã e colocam os caroços na carteira; fazem oferendas a Iemanjá, enfim, cumprem rituais na esperança de que eles lhes garantam dias melhores.

A praxe é demonizar o ano quase findo, como se nunca antes na história do tempo houvesse outro período pior. O novo ano sim, esse promete muito sucesso e plenas realizações. Há convicção de se conseguir de tudo um pouco, ou melhor, de tudo um muito.

Não me alio a esses incautos, mas continuo agarrado à felicidade. Volto ao passado ao reencontrar amigos de infância, procuro escutar músicas que me recordem momentos alegres, apuro o olfato das lembranças positivas, amo com todas as forças do meu ser. Ser feliz não é um objetivo, nem um destino, mas um estado de espírito inalienável.

Não vivemos para servir a um senhor chamado tempo, não somos escravos de uma cronologia utópica, de um faz de conta hipócrita. Não podemos atribuir às datas a responsabilidade de grandes mudanças, a solução dos nossos problemas, o clímax de nossas vidas. O tempo não tem esse condão, apenas transcorre, desde a sua invenção.

Decidiram estabelecer intervalos, colocando como coadjuvantes o sol e a lua, considerando mais simples maldizer os insucessos e comemorar as conquistas. Tornou-se habitual aguardar a magia transformadora da areia da ampulheta, do relógio solar ou do mostrador do relógio atômico. Esses, ao contrário de instrumentos do destino, foram, são e serão somente marcadores de um padrão inventado. Inexoráveis como o tempo, contemplam a ignorância dos aprisionados e marcham solenes rumo ao depois.

Hoje e todos os dias agradeço estar vivo, sobrevivendo aos canalhas de todas as espécies, carrascos da existência de todos nós. Mantenho a espinha ereta com a energia captada dos que me amam, a mente está mais quieta com a temperança, o coração tranquilizou por catarse. E vida que segue.

31/12/2016 e 01/01/2017 significam apenas registros criados pelo vestal Gregório num devaneio papal. Têm muito menos relevância para mim do que 10/09/1956, 20/03/1981, 10/05/1988, 08/08/1988, 27/10/2012 ou 06/07/2013.

O importante é o verdadeiro amor. É permanecer vivo para isso tudo.


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