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Raça fracassada

Desde os primórdios da civilização, o homem se esmera em destruir. Não importa o quê, natureza, meio-ambiente, vidas, monumentos, ideias ou esperanças. Mesmo antes de Abel, o ser humano esfaqueava o irmão, a alma, o sonho, o futuro, o destino.

O aprimoramento de artefatos, planos e inspirações costuma trazer em seu bojo uma às vezes oculta intenção de prejudicar alguém em prol de seus interesses. Esses, por mais próximos da realização estivessem, jamais satisfizeram ou satisfazem à ânsia devastadora da espécie humana.

Não se trata apenas da imperfeição, mas da volúpia insaciável de progresso pessoal, uma sede incomensurável de desejos inalcançados e desnecessários. A natureza humana não se conforma em saborear o êxito, precisa superá-lo ainda que em prejuízo alheio. Somos um projeto mal concebido.

Há quem atribua o controle a seres superiores, de aspectos, espectros e localizações diferentes, bastando assumirem as vicissitudes, os arroubos e as ganâncias nossas de cada dia. Se não as atendem, resta apenas a opção de trocá-los por outros e outros, até acomodarem as impropriedades e os devaneios de quem busca referendar seus atos.

O homem sequer se apercebe da nobreza das atitudes mais próximas, preferindo a vileza dos descaminhos e a amargura das incertezas. O aconchego ele confunde com a imobilidade e o amor com a pieguice.  São prioritários o realismo e a praticidade, a qualquer preço, quando os objetivos traçados estiverem em jogo.

Assim seguimos o caminho inexorável da infelicidade, disfarçada de quando em vez por pequenos e paliativos alentos, eles mesmos cúmplices da amargura e do desapego. Somos uma raça fadada ao fracasso, à comiseração e ao oportunismo.

Queremos o impossível e para tal nos submetemos a desvios de conduta, maiores ou menores. Convictos de nossas idiossincrasias, permanecemos no trem da vida enxergando a felicidade como a parada seguinte e mais distante, enquanto a plenitude está presente em todas as estações, desde a primeira.

Aguardando por ela, chegamos aos nossos últimos dias com a inabalável e equivocada crença de termos feito o melhor.

Até tu, Brutus?

Estamos começando aquele período enfadonho e prolongado entre o Carnaval passado e o próximo, diriam os súditos de Momo. Fato é que, em terras brasilis, somente a partir de agora a vida segue o seu rumo normal. Mas 2019 insiste em se mostrar catastrófico, com as tragédias se revezando como se quisessem furar uma hipotética e interminável fila. Por aqui, onde as mortes em escala viraram uma espécie de passatempo do destino, esse ajudante de palco do ilusionista preferido de todos nós, o tempo. Sem distinção, anônimos ou célebres são escolhidos na plateia do teatro da vida, assumindo o protagonismo de enredos nefastos sequer ensaiados. Nem bem nos recuperamos de um e aparece outro para nos encurralar nas cordas de um ringue sedento por sangue.

Enquanto isso, nos corredores felpudos da Ilha da Fantasia, as aranhas negras tecem novas teias para nos capturar a todos. Fios envolventes como os discursos solenes, malhas asfixiantes como as leis discriminatórias, mal disfarçadas como a Capitu machadiana e seus olhares de cigana oblíqua e dissimulada. A peçonha dos algozes, entretanto, sempre é a mesma. Não trabalham tanto quanto as formigas, mais cantam como cigarras, mas se empenham muito quando lhes interessa, em acordos espúrios noturnos, diurnos ou vespertinos. Tramam as teias qual contratos indissolúveis, benéficos para poucos e extorsivos para os insetos em busca de inatingível salvação.

As fábulas de Esopo e seus bichos falantes datam de 620 A.C., antes mesmo de Caius Julius Caesar. O imperador Júlio César foi assassinado em 15 de março de 44 A.C., num complô tramado por senadores da Antiga Roma, incluindo o próprio filho adotivo da vítima, Marcus Junius Brutus. A ideia do assassinato em grupo foi impedir a identificação do autor do crime, tantos foram os esfaqueadores do Imperador. À morte, Julius Caesar teria exclamado: “Até tu, Brutus?”, expressão repetida hoje quando há “fogo amigo”.

Cansado de ver tanta injustiça, de testemunhar tanta iniquidade, às vezes me flagro refletindo. Por que o povo não encarna o espírito do senado romano em 44 A.C.? E imagino milhões de Brutus naquela multidão sem rosto, os desassistidos, as vítimas de uma legislação entorpecida por décadas de proteção aos mais fortes, ricos e poderosos. Sonho com milhões revoltados contra a tirania, não a do imperador Júlio César, mas a tirania dos encastelados em todos os poderes da República Brasileira. Tenho uma felicidade orgásmica ao projetar a morte desses usurpadores de nossa infância, de nossa juventude, de nossa vida, enfim, da nossa alegria.

Eles lembrariam, pouco antes do último suspiro, que deveriam zelar pela instituição de um Estado Democrático, destinado a assegurar o exercício dos direitos sociais e individuais, a liberdade, a segurança, o bem-estar, o desenvolvimento, a igualdade e a justiça como valores supremos de uma sociedade fraterna, pluralista e sem preconceitos, fundada na harmonia social e comprometida, na ordem interna e internacional, com a solução pacífica das controvérsias. Afinal, todo o poder emana do povo, que o exerce por meio de representantes eleitos ou diretamente.

Naquele momento crucial, percebendo o aproximar do fim, ao encararem cada um dos carrascos sem face, todos os brasileiros, inobstante credo, raça, cor, gênero ou classe social, os tiranos de nossa Pátria murmurariam surpresos: “Até tu, Brutus?”.

 

Vida e tristeza têm fim

Esse destino sempre a nos esbofetear quando nos julgamos invencíveis. É a maneira sutil, ou não, de nos lembrarmos finitos. Como não podemos resetar 2019, admitindo que ele não deu certo desde o início, cabe ao menos uma reflexão maior. Num intervalo de meio mês, de 25 de janeiro a 11 de fevereiro de 2019, foram pancadas seguidas, inacreditáveis, absurdas. Numa sucessão quase decrescente de vítimas, tragédias evitáveis ceifaram almas, primeiro às centenas, depois em dezena e agora em unidade, impactando o país e o mundo.

Estou devassado pela tristeza dos acontecimentos, vitimando muitos anônimos, alguns quase anônimos e uma celebridade. A importância da vida em particular não é mensurável, nem qualificável de forma individual. Mas o impacto em escala, sim. A população, os animais, a natureza, o meio ambiente de Brumadinho, qual fora em Mariana, sofreram um revés incomensurável. Os mortos no temporal do Rio de Janeiro idem. Os meninos do Ninho do Urubu, e suas famílias, perderam os sonhos e as vidas. E o Boechat deixou órfãos a família, o jornalismo brasileiro e todos os seus admiradores, colegas ou ouvintes/telespectadores.

Em todos os casos, há sensacionalistas, oportunistas, revanchistas e invejosos. Os mesmos motoristas mal educados, sonegadores de impostos, pagadores de propinas, péssimos maridos/mulheres ou pais relapsos. De repente, essa gente se traveste de paladinos da justiça e da ordem, verdadeiras palmatórias do mundo. Mas eles sucumbirão a si próprios e, em ultima instância, também não são eternos.

Do ponto de vista pessoal, a bofetada do destino em Brumadinho marcou o meu rosto de brasileiro. Virei a outra face e no temporal da semana seguinte fui esbofeteado como carioca. Nem me refizera e o incêndio do CT Ninho do Urubu esbofeteou a minha face rubro-negra. Nesse 11/02/19, o tapa foi na cara do jornalista frustrado, do admirador de um profissional que eu gostaria de ter ser sido. Que todos descansem em paz. Exceto o Boechat, que já deve estar irrequieto e buscando algo para fazer no outro plano. Com seu estilo verdadeiro e contundente, a essa hora ele está cobrando mais organização de São Pedro, de cuja existência sempre duvidou.

E qual a interligação desses eventos? De início, eram evitáveis. Além disso, nos remetem a uma imediata e profunda reflexão: somos todos finitos, não importa a idade ou as circunstâncias de nossas trajetórias.

Portanto, usufrua dessa efêmera passagem da melhor forma possível, antes do corte da tênue linha da vida.

Carpe Diem.

 

 

Indignação

O administrador da página do meu blog insiste em me enviar avisos automáticos. Ele sinaliza que os leitores estão sentindo falta de novas postagens. Pois não se trata de preguiça ou de falta de tempo. Afora os graves dissabores com o meu desgastado notebook, ando muito indignado com a recorrência dos fatos lamentáveis a me cercarem dia após dia. Falando nisso, me vem à mente a frase: “Não reclame da vida. Dias ruins são necessários para os dias bons valerem a pena“.

Ainda assim está bem difícil. Por ironia, fui motivado a escrever hoje por mais um desses absurdos exemplos. Se não foi o pior durante o meu silêncio, transbordou o meu copo de fel. Soube agora pela manhã da crueldade extrema contra um animal no Parque Guinle. A fêmea do casal de cisnes negros, Romeu e Julieta. Ela chocava os seus ovos e cuidava da ninhada anterior, quando um(a) desqualificado(a) a esfaqueou no peito várias vezes. Embora socorrida mais tarde, Julieta não resistiu ao ataque.

Fiquei impressionado com tamanha brutalidade, apesar da lama em Brumadinho, das prováveis centenas de mortes naquele crime ambiental e outras muitas perdas de vida num ecossistema tão pujante. Sim, a Julieta se restringe a uma ave, mesmo que rara. Mas a agressão inusitada, inobstante menos dantesca do que a produzida na Barragem da Mina do Feijão, me doeu qual um dedo introduzido na enorme ferida exposta há menos de uma semana.

Já desacreditei da Humanidade faz tempo, ao desistir de esperar mais de seres tão impiedosos, frios e calculistas. Repito como um mantra “quanto mais conheço os homens mais eu amo os animais”. E me indignarei sempre com cenas como essas, de Brumadinho e do Parque Guinle, a despeito das evidentes diferenças de causas e de efeitos.

Convivemos numa rotina de mortes violentas, passionais ou não, pelas ruas, pelas casas, pelos parques, serras, planícies, matas, rios e mares. Inexiste o apreço pela vida, pelas espécies, pela poesia da natureza como um todo. As pessoas se mostram egoístas, indiferentes e, sobretudo, perversas. Abandonam filhos, animais de estimação, plantas, enfim, em qualquer circunstância que lhes sugira maior interesse pessoal.

Por essas e outras demoro a escrever. Inspiração desse embate de naturezas me parece mórbida. Natureza humana contra a Natureza na qual ela está inserida. Aliás, segundo Hubert Reeves, astrofísico canadense:

“O homem é a mais insana das espécies. Adora um Deus invisível e mata a Natureza visível, sem perceber na própria Natureza assassinada o Deus invisível adorado”.

https://youtu.be/OfFS4Lu83EY

Lá vem o sol

Fiz essa foto com o meu celular, ontem ao fim da tarde, sentado à beira da piscina. Foi um momento de abstração ao lado da mulher amada. Os reflexos esmaecidos do sol prenunciavam o crepúsculo e me estimularam a refletir também. A metáfora do nascer e do por do sol permanece inspiradora. Faltam tantos queridos ao meu redor, verdade. Há muitos senões, óbvio. Projetos incertos, perspectivas difíceis. Afinal, o que nessa vida podemos considerar certo?

Por favor, recuse aquela tradicional resposta. O nascente e o poente do sol são as certezas mais prováveis em nossa caminhada. O desafio posto: quantos deles ainda veremos? Exceto no caso de um cataclismo indesejado, continuarão a se repetir as cenas maravilhosas desse fato rotineiro no equilíbrio das galáxias. Além das explicações científicas, a simbologia do astro-rei, do levante ao ocaso, influencia a nossa imaginação. Sabemos todos, hoje com absoluta precisão, o horário desses espetáculos da natureza. Mas poucos podem ou querem se deter para apreciá-los. Raros os dispostos a reverenciá-los com um aplauso. Correm o risco de serem julgados piegas ou insanos.

Nossa existência, efêmera por definição e fugaz por extensão, não se digna a contemplar coisas simples. Ou melhor, não valoriza detalhes repetitivos, sejam eles os mais singelos ou os mais espetaculares. Acordar virou um lugar comum, por vezes indesejado mesmo, diante de responsabilidades e compromissos.  Respirar, enxergar, ouvir, falar, andar, enfim, viver, tudo não passa de uma sequência automática e talvez enfadonha. Até algo nos impedir de fazê-los. A vida realmente é um mistério. Parece antagônico, porém, ela pode ser simples como abrir os olhos e complexa como não poder abri-los mais.

Assim é a gratuita apresentação solar, diária e fabulosa, fonte de inspiração de poetas, pintores e fotógrafos. As eras serão sempre insignificantes à sombra de seus raios indizíveis; as cores lhe seguirão submissas como a paleta de um gênio: os pássaros permanecerão fieis à sua batuta para entoar os cantos adequados ao seu ir e vir; os relógios respeitarão suas ordens e os calendários se curvarão aos seus ditames.

Na tarde desse 31 de dezembro do 2018 criado pelo papa Gregório, quando a última trajetória da força motriz de nosso sistema estiver percorrida, dedique ao evento alguns poucos minutos de sua atenção. Admire com êxtase a beleza de tal esplendor, agradeça estar vivo e consciente para observar essa maravilha, aproveite a sua visão para fixar na memória um quadro indescritível.

Esteja convicto, ao raiar do dia, o alvorecer descortinará o ano seguinte. Saboreie com plenitude esse momento e se considere um escolhido ao contemplá-lo. Há quem o chame de felicidade, muitos o denominam destino, alguns de lapso, raros de eternidade. Mas é só o tempo, finito para nós e irrestrito para os imortais.

Você jamais saberá quando será possível outra vez. Por isso lhe desejo o privilégio de acompanhar muitas vezes o caminho do sol do oriente ao ocidente. Vale também para todos a quem você ama e a todos os que lhe amam.

Aproveite 2019 da melhor maneira.