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Ecos do passado

 

Poucos conhecem a Ann Wilson, somente os iniciados. A vocalista da banda Heart, muito menos. Alguns talvez se recordem do riff de Barracuda, hit dos anos 70, na vibrante guitarra da Nancy Wilson, irmã da Ann. Pois elas ficaram mais conhecidas agora após uma emocionante homenagem ao Led Zeppelin. Convidadas por Jason Bonham, filho do espetacular baterista John Bonham, as duas fizeram as lágrimas rolarem nos rostos enrugados de Plant, Page e Jones numa interpretação antológica de Stairway to heaven, no Kennedy Center Honors, em 2012. Certamente, há os que admirem a apresentação sem sequer saber a história musical das irmãs.

Ecos do passado mexem muito conosco, a experiência e os cabelos branqueados não nos escudam o coração de fortes emoções. Ao contrário, enternecidos pela magia de imagens resgatadas e por sons reverberados pelo túnel do tempo, viramos presas fáceis do sentimento aflorando de maneira incontrolável.

Os encontros reunindo amizades longevas, quase sexagenárias, também reverberam sons e imagens do passado. Assim vivemos as reuniões de inacianos da turma de 1974. Não importa se três, quatro, quinze ou duzentos comparecem, se há desafetos, desaparecidos ou dissidentes de última hora. A aura de um tempo eternizado pelas reminiscências toma conta de ambientes grandes ou intimistas, não há métrica para catarses indescritíveis.

Assim transcorreu o almoço na sexta-feira passada. Muitas estórias, muitas gargalhadas, muitas lembranças, muita história. E quase não fui. Mas o coração falou mais alto e dessa energia nos alimentamos para continuar a caminhada, numa troca permanente com o destino de cada um, às vezes melhor, outras nem tanto. Mas todas nos fizeram subir numa escada para o céu.

Na verdade, quando se trata de essência, não somos os personagens que queremos ser, somos o que somos.

Valeu demais, de novo, rapaziada!

Raça fracassada

Desde os primórdios da civilização, o homem se esmera em destruir. Não importa o quê, natureza, meio-ambiente, vidas, monumentos, ideias ou esperanças. Mesmo antes de Abel, o ser humano esfaqueava o irmão, a alma, o sonho, o futuro, o destino.

O aprimoramento de artefatos, planos e inspirações costuma trazer em seu bojo uma às vezes oculta intenção de prejudicar alguém em prol de seus interesses. Esses, por mais próximos da realização estivessem, jamais satisfizeram ou satisfazem à ânsia devastadora da espécie humana.

Não se trata apenas da imperfeição, mas da volúpia insaciável de progresso pessoal, uma sede incomensurável de desejos inalcançados e desnecessários. A natureza humana não se conforma em saborear o êxito, precisa superá-lo ainda que em prejuízo alheio. Somos um projeto mal concebido.

Há quem atribua o controle a seres superiores, de aspectos, espectros e localizações diferentes, bastando assumirem as vicissitudes, os arroubos e as ganâncias nossas de cada dia. Se não as atendem, resta apenas a opção de trocá-los por outros e outros, até acomodarem as impropriedades e os devaneios de quem busca referendar seus atos.

O homem sequer se apercebe da nobreza das atitudes mais próximas, preferindo a vileza dos descaminhos e a amargura das incertezas. O aconchego ele confunde com a imobilidade e o amor com a pieguice.  São prioritários o realismo e a praticidade, a qualquer preço, quando os objetivos traçados estiverem em jogo.

Assim seguimos o caminho inexorável da infelicidade, disfarçada de quando em vez por pequenos e paliativos alentos, eles mesmos cúmplices da amargura e do desapego. Somos uma raça fadada ao fracasso, à comiseração e ao oportunismo.

Queremos o impossível e para tal nos submetemos a desvios de conduta, maiores ou menores. Convictos de nossas idiossincrasias, permanecemos no trem da vida enxergando a felicidade como a parada seguinte e mais distante, enquanto a plenitude está presente em todas as estações, desde a primeira.

Aguardando por ela, chegamos aos nossos últimos dias com a inabalável e equivocada crença de termos feito o melhor.

Até tu, Brutus?

Estamos começando aquele período enfadonho e prolongado entre o Carnaval passado e o próximo, diriam os súditos de Momo. Fato é que, em terras brasilis, somente a partir de agora a vida segue o seu rumo normal. Mas 2019 insiste em se mostrar catastrófico, com as tragédias se revezando como se quisessem furar uma hipotética e interminável fila. Por aqui, onde as mortes em escala viraram uma espécie de passatempo do destino, esse ajudante de palco do ilusionista preferido de todos nós, o tempo. Sem distinção, anônimos ou célebres são escolhidos na plateia do teatro da vida, assumindo o protagonismo de enredos nefastos sequer ensaiados. Nem bem nos recuperamos de um e aparece outro para nos encurralar nas cordas de um ringue sedento por sangue.

Enquanto isso, nos corredores felpudos da Ilha da Fantasia, as aranhas negras tecem novas teias para nos capturar a todos. Fios envolventes como os discursos solenes, malhas asfixiantes como as leis discriminatórias, mal disfarçadas como a Capitu machadiana e seus olhares de cigana oblíqua e dissimulada. A peçonha dos algozes, entretanto, sempre é a mesma. Não trabalham tanto quanto as formigas, mais cantam como cigarras, mas se empenham muito quando lhes interessa, em acordos espúrios noturnos, diurnos ou vespertinos. Tramam as teias qual contratos indissolúveis, benéficos para poucos e extorsivos para os insetos em busca de inatingível salvação.

As fábulas de Esopo e seus bichos falantes datam de 620 A.C., antes mesmo de Caius Julius Caesar. O imperador Júlio César foi assassinado em 15 de março de 44 A.C., num complô tramado por senadores da Antiga Roma, incluindo o próprio filho adotivo da vítima, Marcus Junius Brutus. A ideia do assassinato em grupo foi impedir a identificação do autor do crime, tantos foram os esfaqueadores do Imperador. À morte, Julius Caesar teria exclamado: “Até tu, Brutus?”, expressão repetida hoje quando há “fogo amigo”.

Cansado de ver tanta injustiça, de testemunhar tanta iniquidade, às vezes me flagro refletindo. Por que o povo não encarna o espírito do senado romano em 44 A.C.? E imagino milhões de Brutus naquela multidão sem rosto, os desassistidos, as vítimas de uma legislação entorpecida por décadas de proteção aos mais fortes, ricos e poderosos. Sonho com milhões revoltados contra a tirania, não a do imperador Júlio César, mas a tirania dos encastelados em todos os poderes da República Brasileira. Tenho uma felicidade orgásmica ao projetar a morte desses usurpadores de nossa infância, de nossa juventude, de nossa vida, enfim, da nossa alegria.

Eles lembrariam, pouco antes do último suspiro, que deveriam zelar pela instituição de um Estado Democrático, destinado a assegurar o exercício dos direitos sociais e individuais, a liberdade, a segurança, o bem-estar, o desenvolvimento, a igualdade e a justiça como valores supremos de uma sociedade fraterna, pluralista e sem preconceitos, fundada na harmonia social e comprometida, na ordem interna e internacional, com a solução pacífica das controvérsias. Afinal, todo o poder emana do povo, que o exerce por meio de representantes eleitos ou diretamente.

Naquele momento crucial, percebendo o aproximar do fim, ao encararem cada um dos carrascos sem face, todos os brasileiros, inobstante credo, raça, cor, gênero ou classe social, os tiranos de nossa Pátria murmurariam surpresos: “Até tu, Brutus?”.

 

Vida e tristeza têm fim

Esse destino sempre a nos esbofetear quando nos julgamos invencíveis. É a maneira sutil, ou não, de nos lembrarmos finitos. Como não podemos resetar 2019, admitindo que ele não deu certo desde o início, cabe ao menos uma reflexão maior. Num intervalo de meio mês, de 25 de janeiro a 11 de fevereiro de 2019, foram pancadas seguidas, inacreditáveis, absurdas. Numa sucessão quase decrescente de vítimas, tragédias evitáveis ceifaram almas, primeiro às centenas, depois em dezena e agora em unidade, impactando o país e o mundo.

Estou devassado pela tristeza dos acontecimentos, vitimando muitos anônimos, alguns quase anônimos e uma celebridade. A importância da vida em particular não é mensurável, nem qualificável de forma individual. Mas o impacto em escala, sim. A população, os animais, a natureza, o meio ambiente de Brumadinho, qual fora em Mariana, sofreram um revés incomensurável. Os mortos no temporal do Rio de Janeiro idem. Os meninos do Ninho do Urubu, e suas famílias, perderam os sonhos e as vidas. E o Boechat deixou órfãos a família, o jornalismo brasileiro e todos os seus admiradores, colegas ou ouvintes/telespectadores.

Em todos os casos, há sensacionalistas, oportunistas, revanchistas e invejosos. Os mesmos motoristas mal educados, sonegadores de impostos, pagadores de propinas, péssimos maridos/mulheres ou pais relapsos. De repente, essa gente se traveste de paladinos da justiça e da ordem, verdadeiras palmatórias do mundo. Mas eles sucumbirão a si próprios e, em ultima instância, também não são eternos.

Do ponto de vista pessoal, a bofetada do destino em Brumadinho marcou o meu rosto de brasileiro. Virei a outra face e no temporal da semana seguinte fui esbofeteado como carioca. Nem me refizera e o incêndio do CT Ninho do Urubu esbofeteou a minha face rubro-negra. Nesse 11/02/19, o tapa foi na cara do jornalista frustrado, do admirador de um profissional que eu gostaria de ter ser sido. Que todos descansem em paz. Exceto o Boechat, que já deve estar irrequieto e buscando algo para fazer no outro plano. Com seu estilo verdadeiro e contundente, a essa hora ele está cobrando mais organização de São Pedro, de cuja existência sempre duvidou.

E qual a interligação desses eventos? De início, eram evitáveis. Além disso, nos remetem a uma imediata e profunda reflexão: somos todos finitos, não importa a idade ou as circunstâncias de nossas trajetórias.

Portanto, usufrua dessa efêmera passagem da melhor forma possível, antes do corte da tênue linha da vida.

Carpe Diem.

 

 

Indignação

O administrador da página do meu blog insiste em me enviar avisos automáticos. Ele sinaliza que os leitores estão sentindo falta de novas postagens. Pois não se trata de preguiça ou de falta de tempo. Afora os graves dissabores com o meu desgastado notebook, ando muito indignado com a recorrência dos fatos lamentáveis a me cercarem dia após dia. Falando nisso, me vem à mente a frase: “Não reclame da vida. Dias ruins são necessários para os dias bons valerem a pena“.

Ainda assim está bem difícil. Por ironia, fui motivado a escrever hoje por mais um desses absurdos exemplos. Se não foi o pior durante o meu silêncio, transbordou o meu copo de fel. Soube agora pela manhã da crueldade extrema contra um animal no Parque Guinle. A fêmea do casal de cisnes negros, Romeu e Julieta. Ela chocava os seus ovos e cuidava da ninhada anterior, quando um(a) desqualificado(a) a esfaqueou no peito várias vezes. Embora socorrida mais tarde, Julieta não resistiu ao ataque.

Fiquei impressionado com tamanha brutalidade, apesar da lama em Brumadinho, das prováveis centenas de mortes naquele crime ambiental e outras muitas perdas de vida num ecossistema tão pujante. Sim, a Julieta se restringe a uma ave, mesmo que rara. Mas a agressão inusitada, inobstante menos dantesca do que a produzida na Barragem da Mina do Feijão, me doeu qual um dedo introduzido na enorme ferida exposta há menos de uma semana.

Já desacreditei da Humanidade faz tempo, ao desistir de esperar mais de seres tão impiedosos, frios e calculistas. Repito como um mantra “quanto mais conheço os homens mais eu amo os animais”. E me indignarei sempre com cenas como essas, de Brumadinho e do Parque Guinle, a despeito das evidentes diferenças de causas e de efeitos.

Convivemos numa rotina de mortes violentas, passionais ou não, pelas ruas, pelas casas, pelos parques, serras, planícies, matas, rios e mares. Inexiste o apreço pela vida, pelas espécies, pela poesia da natureza como um todo. As pessoas se mostram egoístas, indiferentes e, sobretudo, perversas. Abandonam filhos, animais de estimação, plantas, enfim, em qualquer circunstância que lhes sugira maior interesse pessoal.

Por essas e outras demoro a escrever. Inspiração desse embate de naturezas me parece mórbida. Natureza humana contra a Natureza na qual ela está inserida. Aliás, segundo Hubert Reeves, astrofísico canadense:

“O homem é a mais insana das espécies. Adora um Deus invisível e mata a Natureza visível, sem perceber na própria Natureza assassinada o Deus invisível adorado”.

https://youtu.be/OfFS4Lu83EY