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É hora de arriar o Bandeira

A uma exata semana das eleições do Flamengo, outras duas decepções. O Renato outra vez aumentou o salário dele no Grêmio por conta do amadorismo do Flamengo e encerramos a temporada perdendo para o Atlético PR. É do ar do Bandeira o cheirinho do quase. Foi um retrato da gestão Eduardo Carvalho Bandeira de Mello: Maracanã lotado, bilheteria explodindo, festa fora de campo e derrota no gramado. Nessa derradeira rodada do Brasileiro de 2018, o jogo foi uma perfeita metáfora da atual diretoria. Às vésperas de ir embora, essa administração não deixará saudades, pelo menos para mim.

Se criticamos gestões rubro-negras, não importa a corrente alvejada, um séquito de inconformados reage com raiva, em geral nos rotulando como membros de uma corrente política antagônica. Não raro, nos chamam de “beneficiados” pelos oponentes. Há uma suspeita capacidade de recusar a opinião contrária, evitando enxergar erros graves.

Poderíamos elencar vários motivos, porém nos restringiremos a alguns mais específicos. Questiono os elogios ao êxito financeiro da gestão. Em tese, pelo fato do Flamengo não ser uma instituição com fins lucrativos. Aos defensores desse pilar para a sustentação do clube como um todo, lembrarei se tratar de um projeto mais amplo, de um grupo pulverizado pelo orgulho pessoal logo no primeiro mandato.

Além disso, como avaliar uma direção com dinheiro à vontade, gastando mal e não conseguindo resultados? O carro-chefe do Flamengo é o futebol e continuará sendo em próximas administrações Partindo dessa premissa, parece indiscutível o fracasso desses gestores. Um orçamento fabuloso foi mal empregado e a fundo perdido, haja vista os insucessos consecutivos nos últimos seis anos. Faltou conhecimento, experiência e pulso firme no futebol rubro-negro.

Para ficar apenas no Brasileiro de 2018, a incompetência se mostra tão evidente que o campeão se conheceu com antecedência de uma rodada. Apenas matematicamente, porque já se conhecia há várias rodadas.

Esse novo fracasso pode ser atribuído a algumas variáveis, embora possamos resumi-lo na açodada e inoportuna venda do Paquetá. Diga-se de passagem, por valor inferior ao previsto na multa rescisória.

Até a Copa do Mundo, todos seguiam o Flamengo, líder do campeonato, jogando bem e convencendo. Após apalavrarem o acerto com o Milan, leia-se Leonardo, o Paquetá passou de melhor jogador do campeonato a uma sombra. Desandou e arrastou o time junto. Virou um jogador irritadiço, indisciplinado dentro de campo, técnica e taticamente. Querendo mostrar um esforço maior apesar da consumação da transferência, o principal jogador rubro-negro se perdeu, exacerbou e comprometeu a campanha rumo ao título. Ou seja, perdemos para nós mesmos.

A título de exemplo, à mesma época que a negociação do Paquetá, o atual campeão brasileiro foi assediado para vender o seu melhor jogador, o Dudu. Recusou a proposta, enquadrou o jogador, então forçando a saída, o transformando num ativo muito mais valorizado hoje em dia. O Dudu não só ajudou demais na conquista, como se transformou no craque do campeonato. Com certeza, agora vale muito mais do que a oferta anterior. Típico exemplo de grande resultado financeiro e técnico.

Há quem vá se lembrar dos empates com o Vasco (menos 29 pontos), ainda às voltas com outro rebaixamento; da derrota para o Botafogo, pré-falimentar e a vinte pontos de nossa posição na tabela; da derrota para o Ceará, com menos 28 pontos e em pleno Maracanã; dos gols incríveis perdidos, um pelo mais caro jogador da história do Flamengo, Vitinho, contra o São Paulo e outro pelo craque do time, Paquetá, contra o atual campeão. Tudo isso foi consequência. A essência da perda do título está na fragilidade da direção e suas sucessivas decisões equivocadas.

Há também quem vá argumentar que, dos vinte concorrentes, só um ganha o título.

É verdade. Contudo, com todo o dinheiro investido nos últimos anos, não há justificativa.

Tomara que em 2019, com novos gestores, ideias e outra filosofia, tenhamos melhores resultados.

Os mal educados

Tenho vivido uma fase sabática na escrita. Culpa de uma revolta com os fatos a me rodear, uma indignação permanente a cada saída de casa, ainda que próxima. No recôndito do lar eu me abstenho dos noticiários o máximo possível, assim me protegendo do frenesi e dos midiáticos ataques. Estamos sujeitos a atitudes espúrias em qualquer circunstância.

No futebol brasileiro, o fair play virou chacota, sendo ostensivo o uso da medida como reles retardamento do jogo. No trânsito, a ameaça está em cada motorista ou motociclista, vândalos prontos a ceifar uma vida de graça. Em bancos, comércio, transportes, não se respeita filas, assentos reservados a idosos e/ou deficientes, enfim, são tempos sombrios.

Mas não vivemos numa bolha. Nas idas ao supermercado ou na procura por um simples lazer, estamos expostos a uma legião de mal educados, a uma turba de gente sem noção e sem limites, não importando o local, muito menos um suposto nível social.

No sábado fomos a um evento escolhido por equívoco, um espetáculo diferente sobre o Natal, cujo foco infantil foi omitido na sinopse e me estimulou a comparecer.

Era no Teatro Riachuelo e optamos pela matinê, às 17:00, quando encontramos uma lógica e grande concentração de pais com seus filhos pequenos. Portanto, era de se esperar exemplos para as crianças.

Ledo engano. Está proliferado o maldito vício, uma verdadeira obsessão, eu diria escravidão mesmo, uma doentia fixação pelos abomináveis celulares.

Não me refiro aos razoáveis registros na entrada e/ou saída, porque não dizer dentro do teatro enquanto as luzes estão acesas. O problema é a insistência dos inúmeros mal educados em manter os aparelhos acesos na escuridão. Pouco importou, nesse caso específico, o aviso prévio da produção do show para se desligar os celulares, em razão da apresentação usar como base a iluminação de led nos artistas. Os inconvenientes são muitos, a impunidade estimula as pessoas a agirem dessa forma.

Saímos do centro da cidade e resolvemos resgatar o sábado. Fomos à Barra da Tijuca para  assistir à pré-estreia do excelente “A vida em si”, do Dan Fogelman, que recomendo demais. Pois bem, local diferente, bairro elitizado, shopping classe A. Já me assustou o comportamento no “trânsito do estacionamento”. Afora dezenas de carros parados em local proibido, em cima de calçadas ou nas vias de acesso, verdadeiros animais irracionais ao volante em velocidade e dando fechadas drásticas no afã de estacionar antes dos outros. Os ignorantes desconhecem, desculpem o pleonasmo, a existência de um estacionamento no subsolo, onde havia mais de quatrocentas vagas livres.

Enfim, chegamos à sala do cinema, passando por uma multidão na praça de alimentação que aguardava o show do Jorge Vercillo e a chegada do Papai Noel.

Entramos, sentamos e, mesmo com as luzes apagadas na exibição dos trailers, dois casais se sentaram à nossa frente, conversando animadamente e em voz alta. Assim permaneceram até que eu sugeri ao vizinho de poltrona, também em voz alta, que discutíssemos as tendências do Campeonato Brasileiro. Aí os inconvenientes se calaram.

Não foi a primeira vez, nem será a última. Também se repetiram os celulares durante o filme, inclusive uma senhora ao meu lado atendendo o seu aparelho em meio a uma cena importante.

Já passou da hora de se proibir a entrada de celulares nesses locais, com revista na porta. Não adianta contar com o bom senso das pessoas. Elas não têm. Muito menos educação.

 

 

Agosto de quem?

Sem me dar conta, surgiu agosto em 2018 e lá estava eu no olho de um furacão inclemente e indomável. Parecia um bêbado brigando com capoeiristas num piso ensaboado. Levantava para cair de novo. Perdi pessoas queridas, bateram no meu carro três vezes, problemas de todas as naturezas, um vendaval completo. Eu não via chegar o dia 31, não conseguia adiantar o calendário. Não há descarrego com sal grosso, arruda, alecrim ou alfazema que dê jeito. As cobras criaram asas e vieram na jugular. Aí não tem como apelar para o torniquete.

Mas agosto não terminara e enfim chegou a véspera do seu desfecho. Pois foi exatamente nos estertores desse dito inferno astral que o mês dos meus pesares virou o jogo. Não, nada do ocorrido mudou. Ainda assim, um e somente um evento transformou a minha impressão sobre esse lapso de tempo.

Uma confraternização de inacianos em torno da nossa coordenadora dos tempos de escola, a querida educadora Blandina Neder, lavou a minha velha alma e reenergizou o corpo cansado de apanhar. Rever a D. Blandina me fez surfar nas ondas do Tuta, sorrir com as piadas do Beteille, escutar as gargalhadas do Flávio Couto e vibrar com os dribles do Cabral e do Pedrinho. De bônus, depois de décadas, direct de Paris, a Tatiana Junod; da Paulicéa Desvairada, o Chachaa, do Rio, a Regina Ottoni.

Mais do que beijar e abraçar a D. Blandina, lhe repeti a minha eterna gratidão por me apoiar num momento gravíssimo da adolescência. Em abril de 1972, perdi o meu pai de forma prematura e não poderia me manter no Santo Inácio. Retornei à escola dois dias após o sepultamento, com a exclusiva intenção de me despedir dos colegas. D. Blandina me chamou à sala da coordenação e me comunicou ter conseguido a concessão de uma bolsa de 100% até o fim do curso. Vive-se uma vida inteira sendo impossível retribuir algo dessa natureza.

Por coincidência, no sábado passado, reencontrei uma amiga de longa data no brechó “Bazar do Desapego. Em meio a roupas, bolsas e acessórios de vestuário à venda, ela me brindou com uma pérola: “com a velhice, aprendi a só me apegar a pessoas”. Eu costumo repetir a citação “quanto mais conheço os homens, mais eu amo os animais”. Há poucas, diria raras, exceções só para confirmar a regra. Uma delas é a D. Blandina.

Depois de um mês terrível, o penúltimo dia resgatou o meu amor próprio e o meu otimismo. Fui encantado pela simpatia e pelo sorriso daquela senhorinha de 93 anos, com o mesmo semblante de quarenta anos passados. Nesse tempo todo, a vida material e louca nos manteve distantes, a despeito de um e outro fugaz encontro. Grave erro. Devemos e podemos manter vivas as nossas memórias, é só querer.

Mal chega setembro e um descaso semelhante precisou de apenas algumas horas para devastar 20 milhões de itens e apagar 200 anos de nossa história. Se eu vou completar 62 anos daqui a alguns dias, a tarefa do destino parece muito mais fácil. Parece, mas setembro está apenas começando. Afinal, a vida muda a cada segundo.

Dona Isolda

Já se passou mais de meio século e as memórias estão nítidas, cristalinas. Eu não conseguia sair da escola para almoçar em casa e descansar um pouco antes de voltar para o segundo turno. Morando muito longe, era impossível ir e voltar a tempo. Alguns colegas mais chegados facilitavam a minha vida, acolhendo esse suburbano em suas casas.

Cada uma das muitas vezes que cheguei àquele apartamento, num prédio da rua General San Martin, encontrei uma família tão receptiva quanto a minha. Lá estavam, além do Dudu, seus irmãos Renatinho e Maninha, e seus pais, Sr Renato e D. Isolda. Sempre me senti à vontade, sendo tratado como irmão e filho, respectivamente.

O Sr Renato, salvo engano engenheiro da área pública, exibia um bom humor permanente. Orientava com um ar professoral, com um temperamento ameno e flexível, sem deixar de lado a cobrança e a sinalização do caminho correto. Mesmo nas piadas frequentes, apareciam as lições. Talvez a razão mais significativa desse perfil estivesse muito mais próxima do que eu imaginava. Ao lado dele estava uma mulher admirável, embora escondida sob uma capa de simplicidade.

A D. Isolda cativava as pessoas com um sorriso suave e cheio de ternura. Dona de um olhar profundo e de uma compreensão generosa, aquela senhora miúda parecia uma gigante aos meus olhos. Ela transbordava sensibilidade e percepção, usava de psicologia no trato de todos, inclusive eu, embora não consanguíneo, pois me sentia protegido demais com aquela absoluta naturalidade.

Da D.Isolda desde a primeira vez recebi um abraço maternal e um beijo de boas-vindas. Isso jamais me passou despercebido. Ao contrário, me impregnou de simpatia e de aconchego, estimulando a minha descontração e a certeza de contar com um oásis de acolhimento em meio a um deserto de diferenças.

A vida, acelerada e obcecada pelos aspectos materiais, nos inocula o vírus do sucesso, contaminando pelo egoísmo e pelo distanciamento. Reencontrei a D.Isolda no aniversário do Dudu há dois anos, portanto décadas passadas desses fugazes, ainda que preciosos, momentos vividos na minha adolescência. Fiz questão de abraçá-la e de beijá-la de novo. Logo em seguida, tive a convicção de ser tardio. Tantos anos perdidos nesse afastamento empanaram o brilho daquele olhar singelo, confundiram os pensamentos, fatos e lembranças. Pagamos por alguns erros um preço caríssimo e irreversível.

Hoje pela manhã me avisaram da passagem da D. Isolda. Soube ter sido suave como a sua existência e, em especial, cercada pelos mais próximos e mais queridos. Agora não há mais o que dizer, exceto confessar uma saudade agravada pelo arrependimento. E, o pior, nada adianta.

As montanhas estão vivas

De uma trajetória exitosa se diz ter um “brilho especial”; ao passante de caminhada significativa qualificamos como um “ser de luz”; no trajeto de legado incomparável, atribuímos ao dono das pegadas uma “luz eterna”. Se os criadores da Sétima Arte foram os irmãos Lumière, me parece justo adotar para alguns filmes o rótulo de “luz eterna”. Esse o caso do primeiro filme assistido por mim, o inesquecível “A Noviça Rebelde”. Eu era menino e meu pai me levava ao cinema, todo primeiro domingo do mês, para acompanhar os “Festivais Tom e Jerry”. Mas a minha estreia em filmes se deu no clássico de Robert Wise, ainda na década de 60, completando 53 anos em 2018.

A minha primeira vez cinematográfica ocorreu onde hoje é o Teatro Riachuelo. Lá, na Cinelândia, funcionava o Cine Palácio, além do Odeon, do Metro Passeio e de outros. Eu não completara dez anos de idade e o dia foi de muito deslumbramento. Acostumado aos desenhos animados na telona e aos bangue-bangues na TV, onde os cowboys davam “cem tiros de uma vez”, a fotografia, a sonoridade e a mensagem daquela obra-prima dos musicais tiveram um enorme impacto na minha formação cultural.

Logo na abertura do filme, no primeiro verso, “The hills are alive…” ecoa na voz magnífica da incomparável Julie Andrews, tendo ao fundo os alpes da Baviera, mais especificamente Obersalzberg. Impossível esquecer cada uma das cenas até hoje, ainda que não as revisse repetidas vezes ao longo da vida. Sábado passado, em excelente companhia, tive o privilégio de assistir ao mesmo musical, agora no palco da Cidade das Artes. Foi tão ou mais emocionante quanto a ida ao Cine Palácio. Os meus quase sessenta e dois anos não impediram as lágrimas furtivas, num misto de nostalgia e de felicidade. Saí de olhos e de alma lavada, enxaguados mesmo.

A emoção em cada música me recordava o meu pai e o quanto ele foi significativo na minha formação cultural, nesse caso específico das artes, da música, do cinema. Nos meus tenros nove anos, ele me encheu os olhos e os ouvidos com uma obra histórica, Não apenas isso, em seguida ele me deu o LP com a trilha sonora do filme. “A Noviça Rebelde” passou a fazer da discoteca, se juntando a tantas outras pérolas das trilhas sonoras, como “Hatari”(Henry Mancini), Butch Cassidy e Cassino Royale(Burt Bacharach), de música erudita(Mozart, Beethoven, Vivaldi, Brahms e todos os grandes), jazz(Nat King Cole, Sinatra e outros), grandes orquestras(Bert Kaempfert, Billy Vaughan, Franck Pourcel, Ray Conniff, Percy Faith, Paul Mauriat, Herb Alpert e outros) e muita MPB.

Outro Dia dos Pais para relembrar um legado importante, embora fugaz, nesses mais de quarenta e cinco anos sem o meu pai presente. Todos os filhos de pais ausentes sabem disso, para o bem ou para o mal. Alguns pais são ídolos dos filhos, outros são exemplos e muitos são lembranças. Essa data jamais foi somente um apelo mercadológico para mim, pois sempre dediquei e dedicarei a esse dia momentos para reflexão e para recordações , brindando de forma silenciosa ao meu pai, uma pessoa com inteligência diferenciada, um homem à frente do seu tempo. Nesse aspecto guardo as melhores memórias dele, a despeito das falhas inerentes a qualquer ser humano.

Em mim, em meus filhos, em meus netos, enfim, em toda a minha descendência, ele estará vivo como as montanhas austríacas.